15 de dezembro de 2024
Vigilância ambiental com foco em cão como animal sentinela para doença de Chagas é tema de formação em São Desidério (BA)

Em mais uma ação que amplia o seu componente formativo nos territórios, o projeto IntegraChagas Brasil, realizou de 9 a 13 de dezembro, na cidade de São Desidério (BA), a formação “Vigilância Ambiental e Controle da Doença de Chagas – Unidades Cão e Reservatórios”.
O processo formativo envolve agentes de combate a endemias (ACEs) do município e aborda a vigilância canina e ambiental, a coleta de sangue em cães e as técnicas diagnósticas da infecção por Trypanosoma cruzi, protozoário responsável pela doença de Chagas, além de discutir o planejamento e a definição das áreas por meio de técnicas de geoprocessamento.
Com aspecto teórico-prático, a formação possibilita aos profissionais ampliar as técnicas de coleta e de manejo de amostras de sangue de cães, animais com papel importante de sentinela, ou seja, alertando para a presença de T. cruzi em determinada região.
A doutora Ana Maria Jansen, pesquisadora do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos (LABTRIP) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) da Fiocruz (LABTRIP-IOC/FIOCRUZ), abordou em sua fala para os ACEs sobre os diversos fatores envolvidos no ciclo de transmissão por T. cruzi e sobre a necessidade de os profissionais possuírem um olhar ampliado para o conjunto de variáveis envolvidas na transmissão do protozoário. “A gente precisa ampliar o olhar. Precisa ter olhar de detetive para determinar eventuais fatores que podem ajudar a identificar a presença do triatomíneo”, destacou.
A pesquisadora do LABTRIP-IOC/FIOCRUZ, Samanta Xavier, ressaltou que a importância de se realizar a vigilância canina e ambiental está atrelada à possibilidade de realizar a detecção precoce da presença de T. cruzi. “O cão entra como um papel importante por ser o animal mais perto do homem que está naturalmente mais exposto a essa infecção, seja porque se aproxima de ambientes silvestres, por ficar fora de casa e ele ser um animal que tem uma característica por apresentar baixo risco de transmissão ou porque é um animal que não tem altas parasitemias”, afirma.
A coordenadora da Vigilância em Saúde de São Desidério, Luzeni Alves, destacou a importância da formação para o dia a dia de trabalho dos ACEs. Segundo ela, a capacitação deve “aperfeiçoar o conhecimento da equipe, trazendo atualizações e inovações nas práticas de trabalho, visando uma melhor qualidade nas ações realizadas”.
Animal sentinela
O trabalho com o cão como animal sentinela tem uma série de vantagens por o animal ser comum em todas as áreas, por já ser trabalhado pelos agentes de combate a endemias em campanhas de vacinação antirrábica e por programas de combate a leishmaniose. O cão representa uma sentinela confiável para a ocorrência de um ciclo de transmissão estabelecido de T. cruzi entre mamíferos silvestres onde existe risco de infecção humana. O papel do animal funciona como sinalizador da presença de T. cruzi em determinada região pesquisada, o cão não atua como fonte de transmissão do parasito, nem para os barbeiros nem para os tutores, explicam as pesquisadoras.
O sistema cão sentinela considera como sinal de alerta a soroprevalência desses animais, igual ou acima de 30% como indicador de uma área com alta transmissão silvestre de T. cruzi. Isso quer dizer que, se em 30% dos animais de uma população de cães que forem testados em determinada região for detectada a presença de T. cruzi, há a necessidade de se realizar o monitoramento da fauna de mamíferos silvestres da região, com o objetivo de detectar a presença de potenciais focos de transmissão para humanos.
Programação
A etapa teórica do processo formativo começou com uma apresentação sobre um olhar para os atores principais envolvidos com a doença de Chagas (Trypanosoma cruzi, reservatórios, triatomíneos e cães domésticos), com os pesquisadoras do LABTRIP-IOC/FIOCRUZ Ana Maria Jansen, André Roque e Samanta Xavier. Eles discutem também a vigilância canina e a ambiental.
Tratou-se, em seguida, da coleta de sangue em cães e técnicas de diagnóstico da infecção por Trypanosoma cruzi, com Carlos Eduardo e Lucas de Souza, além da construção de planejamento e definição de áreas por meio de técnicas de geoprocessamento, com Felipe Oliveira. Para encerrar as atividades da manhã, são feitos a apresentação e o treinamento do formulário RedCap – instrumento de coleta de dados, com o gestor de dados do projeto IntegraChagas Brasil, Anderson Fuentes.
No período vespertino do primeiro dia e nos demais dias da formação, os agentes de combates a endemias foram a campo. Eles passaram por treinamento de abordagem com as famílias tutoras de cães e sobre a coleta de sangue nos animais. Após essa etapa, retornaram ao laboratório para a fase de análise das amostras coletadas e encerramento das atividades.
IntegraChagas Brasil
O IntegraChagas Brasil, projeto do Ministério da Saúde, financiado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), tem o objetivo de ampliar o acesso da população ao diagnóstico e ao tratamento da doença de Chagas no âmbito dos serviços de atenção primária e integração de ações com os serviços de vigilância em saúde.