13 de outubro de 2025
Avanço da doença de Chagas no Norte de Minas Gerais é tema de audiência pública na Assembleia do estado
Após atingir a marca de 18 mil testes rápidos feitos para detectar possíveis casos de doença de Chagas nos municípios de Espinosa e Porteirinha, norte de Minas Gerais, o projeto IntegraChagas Brasil tem um novo desafio: levar todas as 1.259 pessoas com diagnóstico positivo para o tratamento eficaz e gratuito pelo Sistema Único de Saúde. Esse é um dos motes de audiência pública especial na Assembleia do Estado de Minas Gerais que ocorreu na tarde do dia 09 de outubro.
A audiência discutiu o avanço dos casos da doença de Chagas na região norte de Minas. É a primeira vez na história que moradores da área têm um panorama mais preciso sobre o cenário da doença de Chagas local. Desde março de 2024, as cidades de Espinosa e Porteirinha passaram a receber ações do projeto IntegraChagas Brasil, iniciativa do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), para mapear, diagnosticar e tratar pessoas acometidas pela doença em regiões endêmicas do país.
A audiência foi presidida pelo deputado Arlem Santiago, presidente da comissão de saúde do estado. Participaram deste momento a médica cardiologista do projeto IntegraChagas Brasil, Michella Roque, o prefeito de Espinosa, Nilson Faber, os coordenadores dos projetos IntegraChagas Brasil e Cuida Chagas, Eliana Amorim, Alberto Novaes e Andrea Silvestre, coordenadora geral dos dois projetos. Também esteve presente na ocasião Edivar Pereira, presidente da Associação das Pessoas com Doença de Chagas de Espinosa, primeira associação de pessoas com Chagas de Minas Gerais.




Ambos os projetos IntegraChagas Brasil e Cauida Chagas atuam na região norte de Minas, especialmente nas cidades de Espinosa, Porteirinha e Janaúba. Em Janaúba, o Cuida Chagas já testou 9 mil pessoas. Juntos, os projetos testaram mais de 30 mil pessoas no norte de Minas.
O norte de Minas é uma das regiões com maior risco para doença de Chagas no país. Entre maio de 2023 e junho de 2025, segundo dados do e-SUS Notifica, mais de 3.500 pessoas foram confirmadas com doença de Chagas crônica na região, quando a doença evolui para problemas cardíacos e digestivos e mais de 50 óbitos notificados. Quase 1.300 desses casos estão situados apenas em Espinosa e Porteirinha. Mas, o número pode ser ainda maior. O avanço de casos confirmados nessas cidades mostra que a subnotificação pode ser alta em toda a região. Por isso, é importante testar e tratar.
Atenção para as mulheres
A maioria dos casos positivos de Chagas nas duas cidades são mulheres em idade produtiva e fértil, incluindo gestantes. São 516 homens para 743 mulheres em Espinosa e Porteirinha. Graças à testagem, duas gestantes tiveram a confirmação para doença de Chagas nas cidades.

O diagnóstico é importante para impedir que a doença passe de mãe para filho durante a gravidez ou durante o parto. Mulheres em idade fértil são um dos públicos prioritários nas ações de testagem.
Outra amostragem importante constata que, dos 1.259 casos positivos, 81% são pessoas autodeclaradas negras (pretas ou pardas), enquanto 17,2% se declaram brancas.
Como descobrir?
O primeiro passo é a triagem com um teste rápido desenvolvido pela Bio-Manguinhos, da Fiocruz, com resultado que sai em 15 minutos. Se negativo, a pessoa testada não apresenta nenhum indício da doença. Se positivo ou inconclusivo, significa que há um caso suspeito, mesmo que não haja sintomas.
Se descoberta na fase inicial,
a doença de Chagas pode ter cura.
Para tirar a dúvida, então, é preciso realizar o exame sorológico. Em caso positivo, o paciente é encaminhado para consulta médica e ao tratamento adequado, além de aconselhamento com equipe de saúde para monitoramento da família e da residência do paciente.
No entanto, mais de mil pessoas ainda não sabem se vivem com a doença em Espinosa e em Porteirinha, porque foram encaminhados para a sorologia de confirmação mas ainda não realizaram o exame.

No Brasil, a doença de Chagas é uma das quatro principais causas de morte por doenças infecciosas e parasitárias. De acordo com estimativas de 2015, são entre 1,9 milhão e 4,6 milhões de pessoas infectadas pelo parasita da Chagas, o Trypanosoma cruzi. Com a progressão da doença e o aparecimento de complicações no organismo, estima-se que até um milhão de pessoas podem ter desenvolvido a forma cardíaca da Chagas crônica no país.
O norte de Minas Gerais tem histórico endêmico para a doença de Chagas, com uma população que necessita de garantia de acesso à saúde. Alberto Novaes, coordenador do IntegraChagas Brasil reafirma que a responsabilidade é de múltiplos setores, e não apenas da saúde. Para ele, “são necessárias políticas intersetoriais concomitantes: desenvolvimento humano, transferência de renda, assistência e seguridade social, acesso à moradia, saneamento e água. Não podemos nos esquecer da questão ambiental, com os fenômenos de mudança climática e o impacto de projetos hídricos, desmatamento, agricultura extensiva, que modificam o habitat natural dos triatomíneos e fazem com que eles se aproximem de áreas povoadas.”
O IntegraChagas Brasil é um projeto piloto do Ministério da Saúde para ampliar o acesso da população ao diagnóstico e ao tratamento da Doença de Chagas na atenção primária. “Precisamos deixar registrada a importância de que os modelos do IntegraChagas Brasil e do Cuida Chagas sejam replicados em outros municípios do Norte de Minas Gerais, levando a esses locais a mesma construção de linha de cuidado, testagem, diagnóstico e tratamento”, salienta a coordenadora do projeto Eliana Amorim. Em Espinosa e em Porteirinha, as ações de testagem acontecem em todas as unidades de saúde de cada município.