Pela primeira vez, ações estratégicas de vigilância e atenção à saúde estão sendo implementadas e validadas de forma integrada nos territórios, com apoio da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) e da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) do Ministério da Saúde (MS) do Brasil.

A doença de Chagas, reconhecidamente uma condição crônica negligenciada e determinada socialmente, demanda serviços de saúde abrangentes para todas as pessoas acometidas. No entanto, são inúmeras as barreiras existentes para o acesso ao diagnóstico e ao tratamento da doença de Chagas, uma delas na educação permanente aos profissionais de saúde e na educação popular em saúde. Profissionais e gestores em saúde capacitados, movimentos sociais empoderados, comunidades com suas lideranças mobilizadas e informadas podem reverter esta realidade que resulta em menos de 10% de pessoas diagnosticadas. Apenas 1% ou menos das pessoas tem acesso ao tratamento.

Em geral, os diagnósticos ocorrem na fase tardia, com comprometimento crônico e complicações, levando prejuízo às pessoas acometidas e suas famílias, elevando o custo ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os processos formativos, de mobilização social e estratégias de mitigação, juntamente com o aconselhamento e o teste rápido de triagem, são novas estratégias para a ampliação do acesso ao diagnóstico da doença de Chagas e ao cuidado, a partir da Atenção Primária a Saúde.

Vigilância Entomológica

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A vigilância entomológica é essencial para a redução dos riscos de novas transmissões da doença de Chagas. Ela se inicia pela identificação precisa dos triatomíneos (popularmente conhecidos por barbeiros) presentes em uma determinada região. Diferentes espécies de triatomíneos podem ser vetores da doença de Chagas, e a identificação correta é fundamental para entender os padrões de transmissão.
Nesse sentido, é essencial monitorar as populações de triatomíneos ao longo do tempo. Isso permite avaliar as tendências sazonais, as mudanças na distribuição geográfica e a eficácia das medidas de controle implementadas. A coleta de dados sobre a presença de triatomíneos, sua abundância e infecção por Trypanosoma cruzi é parte integrante da vigilância entomológica.
Essa análise fornece informações valiosas sobre os fatores de risco e ajuda na elaboração de estratégias direcionadas.
Com base nos dados obtidos, são implementadas estratégias de controle direcionadas para reduzir a infestação, neste sentido o envolvimento da comunidade é essencial, promovendo a vigilância cidadã.

Eixo de inovação: vigilância de cães (animal sentinela)

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Os cães são animais sentinela importantes para o monitoramento das áreas de transmissão de Trypanosoma cruzi (T. cruzi), parasita causador da doença de Chagas. Cães desempenham um papel de sinalizador para o risco de emergência de casos humanos. Isso significa que os cães alertam para a transmissão do parasita nos territórios de atividade humana. Importante destacar que os cães NÃO atuam como fonte de transmissão para as pessoas.
Para essa finalidade, a vigilância ambiental começa com o diagnóstico sorológico de cães realizado por meio de exames laboratoriais por testes sorológicos e parasitológicos, que detectam a presença de anticorpos ou do parasita no sangue dos animais examinados. É importante realizar o monitoramento em áreas onde há presença comprovada de triatomíneos (barbeiros). O sistema cão-sentinela considera como sinal de alerta para a tomada de decisão em vigilância o registro de infecção desses animais por Trypanosoma cruzi igual ou acima de 30% como um indicador estratégico de uma área com alto potencial de transmissão. A implementação do acompanhamento da soroprevalência da população canina de uma área alvo se destaca por: (i) monitorar as taxas de infecção, (ii) avaliar o potencial infectivo dos cães no ciclo de transmissão de Trypanosoma cruzi e (iii) possibilitar associar o diagnóstico duplo da infecção por Trypanosoma cruzi e Leishmania infantum (causador da Leishmaniose visceral canina) na mesma amostra, potencializando as ações de vigilância epidemiológica no país.
O cão é um sentinela confiável da ocorrência de um ciclo de transmissão estabelecido de Trypanosoma cruzi entre mamíferos silvestres no entorno e, consequentemente, onde existe risco potencial para a ocorrência de infecção humana, reforçando a perspectiva de Uma Só Saúde.
É preciso trazer para os serviços de saúde em perspectiva o conceito da abordagem de Uma Só Saúde (One Health), em discussão em todo o país – Saúde Humana, Saúde Animal e Ambiente, dentro dos contextos sócio-históricos e culturais de cada território.

Uso de teste rápido de triagem

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O projeto IntegraChagas Brasil implantou o uso do Teste Rápido Triagem na Atenção Primária a Saúde em municípios de quatro estados do país. O seu uso facilita o diagnóstico precoce da doença de Chagas CRÔNICA, permitindo que os indivíduos infectados iniciem o tratamento de modo oportuno.
Deste modo, o tratamento parasitológico é essencial para evitar complicações a longo prazo, como doença cardíaca crônica e digestória, que pode ocorrer em casos não tratados.
Muitas pessoas infectadas podem permanecer assintomáticas por anos, portanto, a testagem também é crucial para identificar portadores assintomáticos.
A testagem cria a oportunidade para que os indivíduos diagnosticados positivos acessem tratamento adequado. O tratamento nas fases crônicas pode contribuir para a redução da progressão da doença. Além do diagnóstico, a testagem promove a educação e conscientização sobre a doença de Chagas e a vigilância de pessoas da mesma rede de convívio familiar. Ao entenderem a importância da prevenção e tratamento, os indivíduos podem adotar medidas para proteger sua saúde e a de suas comunidades.

Linha de cuidado

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A estratégia de Linha de Cuidado (LC) tem como objetivo a garantia de acesso e cuidado integral no âmbito das Redes de Atenção a Saúde, a partir da Atenção Primária à Saúde às pessoas com diagnóstico de doença de Chagas, em estreita interface com ações de vigilância.
O projeto IntegraChagas seguiu no apoio aos municípios para a composição do Grupo Gestor da Linha de Cuidado com intuito de juntos definirem a organização dos serviços e as ações que devem ser desenvolvidas nos diferentes pontos de atenção de uma rede (nível primário, secundário e terciário) e nos sistemas de apoio e logístico.
Assim, a LC representa uma das estratégias de ampliação e qualificação da atenção, organizando o processo de trabalho de forma a garantir os princípios da equidade e integralidade da atenção no SUS.

Monitoramento e Avaliação

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O Monitoramento & Avaliação proposto pelo IntegraChagas Brasil direciona-se para qualificar intervenções para melhoria de política pública de saúde para uma doença negligenciada, a doença de Chagas.
Trata-se de um eixo transversal essencial para avaliar a passagem de tecnologias comprovadamente eficazes da “bancada” ou da “teoria” para uma prática em ambiente muito pouco controlado no cotidiano dos serviços de saúde, o que torna possível reconhecer a sua efetividade/eficiência esperada.
Do mesmo modo, o Monitoramento & Avaliação proposto torna possível ampliar o conhecimento sobre a coerência teórica da categoria ACESSO para a intervenção e a sua operacionalização, o que contribui para o aprimoramento de políticas públicas.
O componente do Monitoramento & Avaliação visa realizar e manter estratégias atuais de atenção ao cuidado, ao diagnóstico e ao encaminhamento para o tratamento adequado das pessoas envolvidas na Linha de Cuidado da doença de Chagas, processo pautado no compromisso com mudanças sociais necessárias, incluindo a melhoria das condições de saúde/vida de indivíduos e comunidades.

Engajamento Comunitário

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O engajamento comunitário é essencial para construção e execução de ações e serviços de vigilância e cuidado, em especial para doenças negligenciadas e silenciosas. Nesse sentido, informações de qualidade e processos de educação popular em saúde são essenciais.
Informar as comunidades sobre a doença de Chagas, seus sintomas, modos de transmissão e medidas preventivas é vital para promover uma compreensão abrangente da doença. A participação ativa das comunidades na promoção da testagem também é essencial.
Ao compreender a importância do diagnóstico precoce, os membros da comunidade são incentivados a buscar o cuidado a sua saúde, facilitando a identificação da doença de Chagase e a importância do tratamento oportuno.
O engajamento comunitário bem-sucedido leva em consideração as práticas culturais locais. Ao integrar abordagens culturalmente sensíveis, os programas de saúde pública podem ser mais eficazes, respeitando e adaptando-se às tradições das comunidades.
O compartilhamento de experiências positivas e histórias de sucesso relacionadas ao tratamento e controle da doença de Chagas dentro das comunidades pode inspirar outros a seguir o exemplo. Isso fortalece o senso de coletividade e incentiva práticas saudáveis. O engajamento comunitário não é uma atividade única, mas um processo contínuo. Coletar feedback das comunidades afetadas, envolvê-las na tomada de decisões e adaptar as estratégias de saúde pública com base nesse feedback são práticas fundamentais para um engajamento efetivo.

Saúde na escola

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O componente Saúde na Escola pode desempenhar um papel crucial na educação e conscientização sobre a doença de Chagas nas escolas.
Incorporar informações sobre a doença nos currículos escolares ajuda os alunos a compreenderem os riscos, os sintomas e as medidas preventivas. A presença regular de profissionais de saúde nas escolas, como enfermeiros e Agentes Comunitários de Saúde, facilita a identificação precoce de casos suspeitos de doença de Chagas. Essa detecção rápida pode levar a encaminhamentos para testagem e tratamento adequados.
A estratégia é fundamental também porque os estudantes desempenham o papel de multiplicadores das ações de cuidado para as famílias.